A história da cidade de Petrópolis, localizada
835 metros acima do nível do mar, com 70% de sua área encravada
em uma das últimas reservas de Mata Atlântica do planeta,
começa quando seu clima excelente e natureza exuberante ganharam
mais um ilustre admirador: D. Pedro I. Percorrendo o chamado
"Caminho do Ouro" em direção à Minas Gerais, no ano da proclamação
da Independência - 1822 - aquele que seria o primeiro Imperador
do Brasil ficou encantado com a região, após hospedar-se na
fazenda do Padre Corrêa, atual Distrito de Cascatinha. Durante
os anos seguintes, D. Pedro continuou como hóspede freqüente
da fazenda, trazendo a família e, mais tarde, se propondo
a comprá-la. Contudo, D. Arcângela Joaquina, irmã e herdeira
do Padre Corrêa, acabou sugerindo ao Imperador a compra da
fazenda vizinha: Córrego Seco, onde hoje se encontra o Centro
Histórico da cidade de Petrópolis, um dos mais significativos
conjuntos arquitetônicos referentes ao século XIX de todo
o mundo - um rico patrimônio histórico que atrai, hoje, mais
de 300.000 turistas/ano, nacionais e internacionais.
Porém, muitas águas rolaram sob as pontes
dos rios Quitandinha, Palatino e Piabanha, que cortam a cidade,
antes que esta viesse, de fato, a se tornar uma realidade.
Apesar de ter sido adquirida em 1830 para abrigar um grande
palácio, a fazenda passou 12 anos praticamente abandonada,
envolvida nas discórdias políticas que se seguiram à abdicação
de D. Pedro I, em 1831. Somente em 1843, D. Pedro II começa
a dar forma ao projeto "Povoação-Palácio de Petrópolis", de
forma mais efetiva, graças à orientação de dois ilustres patronos:
o mordomo da Casa Imperial e administrador dos bens de Sua
Majestade, Paulo Barbosa e o major alemão Júlio Frederico
Koeler, já há alguns anos servindo na engenharia das Forças
Armadas.
As dificuldades da empreitada não eram poucas.
A área onde hoje se encontra o Centro Histórico era pouco
mais que um charco, cujo clima úmido e frio assustava os brasileiros.
A distância era considerada impeditiva, já que vir até Petrópolis
era uma viagem que incluía a travessia da Baía de Guanabara
por barco e depois, uma áspera subida de 14 léguas em lombo
de cavalos ou carruagem em declive acentuado. Koeler, porém,
guardava um trunfo especial: a sua crença na superioridade
do trabalho livre sobre o escravo, comprovada anos antes quando,
com a anuência do Imperador, contratou 238 trabalhadores alemães
para a construção da Estrada Normal da Serra da Estrela: o
primeiro caminho que veio a substituir as trilhas abertas
pelos bandeirantes e outros aventureiros, durante os dois
séculos anteriores. Os primeiros alemães, na verdade, permaneceram
no Brasil por acaso: após embarcarem no Velho Mundo com destino
à Sidney, Austrália, acabaram se amotinando por conta dos
maus-tratos sofridos no navio francês Justine e, a partir
do Rio de Janeiro, não quiseram mais seguir viagem. Permaneceram
na região de "Serra Acima" e adaptaram-se muito bem.
Partindo deste dado, Koeler uniu-se à Paulo
Barbosa, para convencer o Imperador a fundar uma colônia agrícola
na fazenda do Córrego Seco. Entusiasmado, o Imperador assinou,
em 16 de março de 1843, o decreto que criou Petrópolis - primeira
cidade planejada do Brasil.
É neste ponto que surge um fator
importantíssimo para a fisionomia que a cidade iria adquirir
ao longo do tempo: os novos colonos alemães. O que gerou um
fato interessante. Um intermediário foi contratado em Dunkerque
para enviar, por acordo firmado com o Governo Brasileiro,
600 casais de agricultores para Petrópolis: a firma Delrue
& Cia. Porém, valendo-se de uma artifício desonesto, a
empresa aproveitou-se da grande crise econômica reinante na
Alemanha naquela ocasião, para trocar a palavra "casais" por
"famílias" e enviar para o porto do Rio de Janeiro, em levas
quinzenais totalmente desorganizadas, um grupo imenso de pessoas
ligadas por laços distantes - tios, primos, cunhados, sogros,
etc. - com qualificações profissionais inteiramente diversas
das estabelecidas. Até a suspensão do contrato com Delrue,
os alemães já somavam mais de 2.000 pessoas, que o Imperador
D. Pedro II recebeu com tão notória generosidade, que a colônia
não deixou de homenageá-lo nem mesmo após a Proclamação da
República, chamando-o sempre, carinhosamente, de "Unser Kaiser"
(Nosso Imperador).
Petrópolis acabou tendo um destino diferente
do imaginado por Koeler. Não se tornou uma povoação agrícola,
mas sim uma cidade que não parou mais de progredir, mostrando
uma clara vocação para a beleza, a cultura, a arte e a introspecção
que facilita o estudo, a pesquisa e a meditação. Durante todo
o Império e também na República, foi a preferida de inúmeros
nobres e intelectuais, para descanso e lazer. D. Pedro II
- e, em conseqüência, toda a sua corte - passava na cidade
seis meses por ano, de novembro a maio: neste período, Petrópolis
era, de fato, a capital administrativa do Império. Soberano
afeito às artes e à ciência, D. Pedro II inaugurou a tradição
que estabeleceu, em Petrópolis, uma concentração incomum de
pessoas ilustres, reconhecidas ao longo destes 155 anos: França
Júnior, Afonso Arinos, Raimundo Correia, Rui Barbosa, Santos
Dumont, Stephan Zweig, Gabriela Mistral, Alceu Amoroso Lima,
Sylvia Orthof, e muitos outros.
Na República, a cidade manteve este "status",
já que o Palácio Rio Negro, residência oficial de verão dos
Presidentes da República, hoje a primeira "guest-house" oficial
aberta à visitação do país, continuou a receber todos os presidentes,
de 1904 a 1960 - tradição retomada em 1997, pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso.
Mas o crescimento começara bem antes. Já
em 1854, por iniciativa do maior empresário do século passado,
Irineu Evangelista de Souza, o Barão e Visconde de Mauá, a
cidade recebe novo impulso, com a construção da primeira estrada
de ferro brasileira, que ligava o Porto de Mauá à Raiz da
Serra. Nesta fase, o pioneirismo e espírito vanguardista da
cidade se solidificaram. Em 1861, a primeira estrada de rodagem
do país, a União e Indústria, foi inaugurada ligando Petrópolis
à Juiz de Fora. Em 1883, a Estrada de Ferro Príncipe do Grão-Pará,
mais tarde Leopoldina Railway, fez com que o primeiro trem
subisse a serra. Em 1897, Petrópolis assistiu, no Teatro Cassino
Fluminense, à primeira exibição pública de filme produzido
em território nacional: uma película de menos de um minuto
de duração, que retratava justamente a chegada do trem à estação
de Petrópolis. De 1894 a 1903 - ano em que a cidade assistiu
a assinatura do Tratado de Petrópolis, que anexava o Acre
ao território nacional - Petrópolis tornou-se a capital do
Estado do Rio de Janeiro. E, no ano seguinte, o Palácio Rio
Negro foi adquirido para ser residência oficial de verão dos
presidentes da República. A conseqüência direta desta íntima
relação com o poder foi a inauguração, em 1928, da Rodovia
Washinton Luís, a primeira do país a ser asfaltada, ligando
Petrópolis ao Rio. E a permanência de Petrópolis no cenário
decisório do país até o início do governo militar, em 1964.
Paralelamente, outros pólos da cidade se
desenvolviam. Nos anos 40, Petrópolis destacava-se no cenário
têxtil e também no turismo. Um marco desta época é a inauguração
do Hotel e Cassino Quitandinha, em 1944, que atraiu para a
cidade artistas e personalidades do jet set internacional,
como Errol Flynn, Orson Wells e Carmen Miranda.
No final dos anos 90, Petrópolis se prepara
para o século XXI disposta a guardar o melhor de suas tradições
e a entrar, decisivamente, na era tecnológica. A inauguração
do Laboratório Nacional de Computação Científica - LNCC, coloca
a cidade em posição de destaque no desenvolvimento de setores
que dependem de alta tecnologia e pesquisa para sua produção.
Petrópolis abrigará então, o SP-2, que é o computador mais
avançado da América Latina. E o projeto de revitalização do
Centro Histórico, que teve como prévia a restauração e abertura
ao público do Palácio Rio Negro e do Palácio de Cristal de
Petrópolis, único nas Américas, bem como o amplo desenvolvimento
do centro gastronômico e de lazer da região de Itaipava e
adjacências, está estimulando o crescimento turístico nos
seus segmentos ecológico, de compras e de convenções, devolvendo
à cidade todo o charme que seduziu D. Pedro I, há mais de
150 anos.
Gravura
da atual Rua Paulo Barbosa com vista para o Museu
Imperial
Rua
do Imperador no início do século
Rua
do Imperador no início do século, vê-se um acidente
entre dois ônibus e parte do prédio dos Correios
ao lado esquerdo.
Vultos Célebres da História de Petrópolis
Imperador
D. Pedro II
Imperador do Brasil e proprietário
da Fazenda do Córrego Seco. Assinou o Decreto nº 155
em 16/03/1843, elaborado pelo Mordomo Paulo Barbosa
da Silva, arrendando a fazenda do Córrego Seco ao
major Koeler. O arrendamento foi para: construção
de um palácio, uma povoação e a doação de terras para
uma igreja (Matriz com invocação à S. Pedro de Alcântara)
e um cemitério.
Major
Júlio Frederico Koeler
É o fundador da colônia
alemã em Petrópolis. Imigrante alemão, nascido em
Mogúncia em 1804. Veio para o Brasil em 1828 para
servir no Exército Imperial. Casou-se com D. Maria
do Carmo de Lamare. Tornou-se cidadão brasileiro em
1830. Em 16/03/1843 arrendou a Fazenda do Córrego
Seco com o objetivo de construir um palácio para o
Imperador e iniciar uma povoação.
Paulo
Barbosa da Silva
Engenheiro e Mordomo da
casa imperial, foi colega de Koeler no exército. Foi
quem convenceu o imperador a arrendar a fazenda do
Córrego Seco a Koeler. Foi quem deu o nome de Petrópolis
(cidade de Pedro) à Petrópolis, sendo futuramente
considerado o Primeiro Petropolitano de coração e
alma.
Princesa
Isabel
Como filha de D.Pedro II,
regeu o Brasil nas suas poucas ausências. Defendia
a mão-de-obra livre sendo totalmente contra a escravatura.
Conhecida como "A Redentora" assinou a Lei do Ventre
Livre e a Lei da Abolição da Escravatura. Concedeu,
pessoalmente, a 103 escravos de Petrópolis os títulos
de liberdade em 1º de abril de 1888, em solenidade
no Palácio de Cristal.
Barão
do Rio Branco
Possuía em Petrópolis uma
residência de verão, localizada hoje na rua que leva
o seu nome (Barão do Rio Branco), onde foi assinado
o Tratado de Petrópolis. Este tratado ampliou o território
nacional, incorporando ao Brasil, o território do
Acre, negociado junto à Bolívia.
Oswaldo
Cruz
Este grande médico e sanitarista
foi responsável pela erradicação da febre amarela
no Rio de Janeiro e foi o primeiro prefeito de Petrópolis.
Alberto
Santos Dumont
Considerado o "Pai da Aviação"
pela autoria da dirigibilidade do balão e do primeiro
vôo do avião no célebre "14 Bis" em Paris, Alberto
Santos Dumont construiu sua casa, de singular arquitetura,
em Petrópolis, hoje administrado pela Prefeitura como
ponto turístico de grande visitação pública.
Rui
Barbosa
Foi um dos fundadores da
República, tendo sido o primeiro Ministro da Fazenda.
Pela sua notável participação na Conferência de Haia,
ficou conhecido como o "Águia de Haia". Célebre veranista
de Petrópolis, veio a falecer em 1923 na sua residência
localizada na atual Rua Ipiranga.
Wim
Van Dijk
Outro célebre representante
das artes plásticas, viveu grande parte de sua vida
e veio a falecer em Petrópolis, no bairro Mosela.
Vinícius
de Moraes
Passou parte de sua vida
em Petrópolis, no anexo da casa do Barão de Mauá,
onde, junto com Carlos Lira, compôs a peça "Pobre
Menina Rica".
Gabriela Mistral
Poetisa chilena, residia
em Petrópolis quando foi agraciada com o Prêmio Nobel
de Literatura.
Djanira
da Motta e Silva
Famosa pintora brasileira,
viveu os últimos anos de sua vida em sua residência
de Petrópolis, localizada no atual bairro da Samambaia.